Audição Obrigatória #2
Gatherers - (Mutilator.) 2022
Aqui temos o famoso caso de uma banda muito boa, mas que infelizmente ainda é desconhecida por muitos. Gatherers é uma banda de Post-Harcore/Screamo de Nova Jersey (EUA). Seu primeiro full álbum (Caught Between a Rock and a Sad Place) foi lançado em 2013, o que de cara já seria um impedimento pra banda de cara alcançar algum tipo de notoriedade devido o fato de que nesse exato ano, muitas outras bandas já bem estabelecidas e assinadas com grandes gravadoras estavam lançando trabalhos muito bons e que tiveram grande destaque. De fato, esse ano poderia estar facilmente numa história de ficção, onde artistas teriam sido iluminados com a inspiração de Calíope, porque veja alguns exemplos deles: I Survived by do Touché Amoré, Feel do Sleeping With Sirens, Sempiternal do Bring me the Horizon, Common Courtesy do A Day to Remember, The Things We Think We’re Missing do Balance and Composure, Youth do Citizen, Spring Songs do Title Fight, e muitos outros. A banda a esse ponto, além de ainda não ter uma grande gravadora a seu favor, ainda viria a lapidar sua música, estando ainda muito derivativa de outras bandas, como o próprio Touché Amoré, já citado anteriormente.
O próximo álbum da banda (Quiet World) foi lançado em 2015, e sim, apesar de não ser um ano tão prolífico quanto 2013 em quesito de lançamentos tão marcantes em quantidade e qualidade, honestamente, o Gatherers ainda não tinha o famigerado ‘’molho’’ como se diz no português coloquial Brasileiro. Apesar de a banda ter tido a oportunidade de assinar com a Equal Vision Records, as músicas não tinham tanta variação de ganchos vocais, o que fazia com as músicas ficassem muito parecidas entre si. Isso provavelmente acabou se tornando um fator limitador para a complexidade do álbum e acabou fazendo com que ele passasse despercebido, tendo no máximo uma avaliação bem parecida com seu antecessor (bom, mas não atinge o patamar de ótimo ou excelente). Mas foi em 2018 que tudo começou a mudar. A banda lançou um single chamado ‘‘The Floorboards Are Breathing” que por si só já merece minha recomendação aqui no Faixa Dupla, pois é uma música que finalmente faz a banda chegar ao patamar de excelência. Aqui temos ritmicidade mais cadenciada com groove, temos ganchos vocais absurdamente grudentos, ótimo refrão, instrumental com atmosfera, ou seja, parecia que a banda estava tomando um novo rumo. Lançaram mais dois singles e depois seu próximo álbum intitulado We Are Alive Beyond Repair . E foi aí que as suspeitas se confirmaram. Tínhamos uma banda procurando evoluir todas as ferramentas que já tinham antes a seu dispor, lapidando suas características mais fortes e trazendo novos elementos para a mesa de som. O álbum (pro meu gosto pessoal) subiu muito em conceito de composição, e entregou músicas mais marcantes e com mais personalidade. Só que ainda não era o ápice da banda, porque o que viria pela frente seria bem melhor e sim, muito superior.
Foi quando em 2020 a banda dropou um single que faria parte do seu próximo álbum, a faixa 08, que se chama Ad Nauseam, I Drown (o nome significa ‘’Com náuseas, me afogo’’, e o latim aqui talvez tenha um significado bem coerente com a narrativa do álbum, não sendo algo aleatório). Aqui você já entende que a banda definitivamente achou sua nova identidade e que está ainda mais evoluída em quesito de composição, o que me deixou muito esperançoso para um possível novo trabalho. A letra é extremamente sombria, e narra um personagem mergulhando em profunda saudade de alguém que se foi, e acaba fazendo com que ele se sinta abraçado por esse ente que se foi. Ao lembrar dela ele sente náuseas e vontades de vomitar, pois lembra dela em estado de melancolica, paralisada e desencarnada.
Em seguida eles lançaram a espetacular Black Marigold (faixa 02 do álbum), que definitivamente é minha música favorita da banda. Eles adaptaram o poema de mesmo nome, que foi traduzido para inglês no início do século XX. O poema narra a história de um poeta que se apaixona pela filha de um Rei, e quando descoberto, é jogado na masmorra e condenado à execução. Ele escreveu este poema na masmorra, na noite anterior à sua execução. A música tem um dos melhores refrãos que já ouvi na minha vida, e o andamento é mais lento e atmosférico, com ótimos versos e screams aplicados na hora perfeita. A música tem até mesmo um pequeno solo de guitarra, simples e curto, porém serve de ponte para o último refrão que conta com um pequeno coral usado na última estrofe do refrão. Enfim, Black Marigold é uma música impecável, o famoso 10/10.
Gift Horse é o próximo single (faixa 05 do álbum), e o que já estava bom só vai melhorando cada vez mais. Ao ver o nome de Geoff Rickly (vocalista da lendária banda Thursday) como feat da faixa, você automaticamente já parte do pressuposto de que provavelmente vai ser uma paulada. A participação é quase imperceptível e muito curta (uma pena), mas isso não tira o brilho da música como um todo. Pense em uma mistura de Glassjaw, com Deftones, mas tudo isso envolto de um vocal melódico absurdamente semelhante a Bert McCracken (The Used) misturado com Darryl Palumbo do Glassjaw. Essa é uma das letras mais difíceis de se interpretar, e apesar de eu ter tentado muito, não consegui decifrar o quebra-cabeça. Mas de forma geral, a banda te leva para uma narrativa que faz alusão a algum tipo de seita religiosa, sempre descrevendo rituais, com línguas perdidas, mãos erguidas aos céus, um pedido de oferta do primogênito, a cruz abandonada, etc.
Logo após isso, eles lançam seu último single intitulado suffocator (faixa 07 do álbum), que conta com o feat de Dan Lambton (ex- Real Friends). De cara você já sente uma influência de emo/pop punk e hardcore melódico bem forte. Apesar de a música ser mais curta e simples em relação as anteriores, mais uma vez temos ótimos ganchos vocais nos versos, no refrão e na participação de Dan. Mas não é porque a música é mais ‘’pra cima’’ que a letra deixa de ser densa. Ela descreve um cenário em que uma garota morreu, e o nosso protagonista vê a cena ambientada no que parece ser um velório, com cartões funerários pregados na parede, garotas católicas ao redor, um silêncio ensurdecedor, e mais uma vez um sentimento de extremo desconforto e sufocamento. A esse ponto você já percebeu que a narrativa aqui nessas 4 faixas é quase que sinestésica, pois você mergulha com eles nessa história sombria que está sendo narrada.
Em Novembro de 2022 a banda lança oficialmente o álbum (Mutilator.), e temos a chance de ouvir os singles em contexto com as faixas restantes.
A faixa número 1 é Massalette (a título de curiosidade: Massalette é um folheto que é dado às pessoas em missas da igreja Católica, onde elas podem acompanhar todo o desenrolar da cerimônia). Sem perder tempo eles iniciam com um riff bem marcante, e em seguida Rich começa a entoar uma história sobre a perda da fé diante da morte de uma pessoa que provavelmente cortou os pulsos, se suicidando e deixando o protagonista sozinho depois de tê-lo acolhido, como um pássaro que estava morimbundo. Os elementos cristãos estão sempre presentes nas letras, como Rosários, a Graça Salvadora, Deus, fé, etc. Musicalmente essa faixa é sem dúvidas uma das melhores do álbum, e inicia muito bem o tracklist pois ela carrega todo o storytelling, a carga dramática, e a melodia do álbum como um todo. Aqui a banda claramente (assim como no álbum anterior) abandona completamente o approach do screamo e firma 100% seus pés no post-harcore.
A faixa 3 é Boxcutter, que conta com a participação da talentosíssima compositora, cantora e multi instrumentista Courtney Swain, que contribui com seus vocais (singelos e quase imperceptíveis), mas como já citado anteriormente, isso não afeta o resultado final da música como um todo. E vale aqui uma observação a se fazer: Em determinado ponto da letra dessa música o vocalista cita ‘’Decades in the bed you made, Black Garb of the Heaven’s Gate. Come back to Sleep baby. Estaria ele fazendo alusão ao famoso caso de suicídio em massa da seita Heavens Gate de 1997? Há muitas semelhanças em referência aqui, pois até hoje encontramos facilmente na internet fotos reais dos corpos achados, deitados em camas e totalmente cobertos com um capuz preto. Logo mais a frente ele referencia o nome do álbum na frase ‘’mutilate me, you’re my boxcutter’’’, ou seja, ele pede para alguém o cortar em pedaços, tornando essa pessoa (ou coisa), o próprio mutilador.
A faixa 4 é a ótima honey on the marrow, que só pelo título você já pode perceber a metáfora inteligente feita entre a medula e o mel. A medula é o elemento central do nosso esqueleto geralmente associada a vida, trauma, ou dor profunda. Mas pondo mel no lugar da medula sugere-se uma tentativa de aliviar a dor e o sofrimento, trazendo conforto e doçura. Musicalmente falando, a música mais uma vez traz um ritmo dançante, refrão ‘’cantante’’, uma linha de baixo bem marcada e destacada nos versos, e um final que lembra muito o Underoath.
Seguimos com a faixa 06 spine, que é bem curta e funciona quase como um ponto de conexão com a próxima faixa (não é ironicamente que a música se chama spine). Aqui o protagonista implora por amor, independente de quão fodido e distorcido ele seja, a ponto de pedir para ser crucificado se possível, e escarificado. O protagonista não se vê no paraíso, pois ele não se encaixa nesse conceito.
Aqui chegamos nas parte final do álbum. Temos a música 09 intitulada last days numbered on a rotary dial, que a meu ver traz uma das letras mais enigmáticas do disco, e me parece narrar uma situação envolvendo uma cerimônia de casamento de um soldado que ocorreu em um lazaretto (Uma estação de quarentena para viajantes marítimos, imigrantes e mercadorias, destinada a prevenir a propagação de doenças infecciosas como a peste ou a febre amarela). Uma conversa tensa pelo telefone gera o suspense, pois parece que esse casamento chegou ao fim.
A faixa 10 tourniquet (for luck) é a penúltima. O nome da música faz alusão a um tipo de amuleto decorativo trançado até formar um padrão. Aqui a banda soa muito como o Thursday de forma maravilhosa, porém com refrão mais pesado no estilo Glassjaw. Essa parte da história parece ter conexão com as trincheiras citadas da faixa anterior. O soldado parece estar de cara na lama, e a esse ponto ele não consegue sentir mais nada, imerso em um profundo dilema de manter ou tentar esquecer essa pessoa amada, que é tão poderosa que não pode ser exorcizada com água benta. Mas o soldado guarda o amuleto, o segura firme e sangra por se sentir amado.
Chegamos na faixa 11, a última do disco, chamada twelve omaha solemn certainty, onde a banda tira 5 minutos e 7 segundos para narrar um desfecho que se ainda não estava dramático o suficiente, chega a seu ápice. A faixa narra o momento derradeiro da desesperança, um adeus. Um aviso na tv com um alerta do Sistema de Transmissão de Emergência pede: "Junte-se aos seus amigos, à sua família, ao seu Deus". Mas como não há mais esperança, nosso protagonista sela todas as suas janelas com tábuas, pega sua escopeta e põe na boca. Não há ninguém ali para o impedir, então ele senta contra a parede e se dá conta que está preparado para partir. A banda opta por fechar o álbum com uma uma música mais calma, mais lenta e mais dramática, com bastante melodia e que provavelmente poderia até mesmo ser um indicativo do que a banda seguiria como proposta sonora para um próximo trabalho.
De forma geral, (mutilator.) é a meu ver, o melhor trabalho da banda, pois não erra em quase nada, e quando erra, não atrapalha em nada no resultado final do trabalho. De fato, o único erro desse disco foi não trabalhar de forma melhor as participações, pois poderiam dar mais destaque e mais tempo aos convidados. Fora isso, a banda mostra um álbum extremamente coerente entre os elementos do conceito vs execução. Como o disco narra uma história dramática de perca de fé, religião, amor trágico, suicídio e dor, a música acompanha perfeitamente esses temas, com instrumentais densos, melancólicos e pesados. Aqui finalmente o vocalista Rich Weinberger atinge seu ápice como compositor e cantor, trazendo ótimos ganchos vocais durante toda a execução do álbum, fazendo você querer escutar novamente as músicas. E isso é irônico porque por volta de 2015 Rich sofreu uma lesão nas cordas vocais, logo depois do lançamento do álbum. A banda entrou em hiato desde então e ainda não retornou às atividades. O ditado popular diz: “Há males que vêm para o bem”. Nesse caso, para bem ou para mal, a meu ver, se a banda estiver planejando algo novo pro futuro, será muito bem-vindo caso voltem com uma identidade vocal ou instrumental nova, como já aconteceu com outras bandas anteriormente (vide a lesão vocal que Matt Shadows teve no Avenged Sevenfold e depois retornou com o ótimo City of Evil). O futuro nos dirá caso isso tenha que acontecer. Até lá, aprecie o trabalho construído pela banda até aqui, pois ela tem uma discografia muito digna de atenção e apreciação.